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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A Estranha

                                                                       
            Frio na barriga, mãos transpirando. Lá estava eu, sentado em uma das poltronas próximas ao corredor. Janela? Nem pensar. Visualizar o mapa de rota? Jamais. Televisão, lanchinho. Nada disso me acalmava. Aliás, a aeromoça me entregou os fones de ouvido e eu não sabia onde havia guardado. Procurava nos bolsos, na poltrona, me revirava para encontrá-los, quando uma voz interrompeu a minha busca pedindo licença para sentar-se ao meu lado.
            Como se não bastasse o meu medo de voar, ainda teria testemunha. Será que dormiria, tentaria conversar, daria risadas? Nesse momento, levantei os olhos e dei de cara com uma estranha me observando com um jocoso sorriso nos lábios, como se já soubesse do meu desespero.

         Passado os avisos, o avião começou a decolar. Ela continuava com aquele sorriso. Observava curiosa, tudo o que se passava ao lado de fora daquela bendita janelinha, feliz da vida. Abaixo de nós, somente o mar. Concentrei-me em assistir ao programa da Marília Gabriela, mas confesso que a estranha era mais interessante. Reparei que estava ouvindo música. Não deveria gostar da Gabi, nem de Os Flintstones. Ela me olhava meio de canto enquanto eu fingia estar concentrado em fazer a leitura labial do programa. Sorrindo, me ofereceu seus fones. Ela queria rir da minha cara, isso sim. Recusei, mas não resisti ao sorriso, retribuí.   

            A estranha, a janela. Eu estava ficando curioso. Há anos viajava para o Rio e jamais ousara olhar para o lado. Suava só de pensar, mas nesse dia eu quis saber como era lá embaixo. Inclinei-me levemente e olhei pela frente de seu corpo. O mar, a praia, as ilhas. Os olhos, os lábios, a saboneteira. A vista era, realmente, deslumbrante. Nunca mais viajei para o Rio de Janeiro sem apreciar aquela paisagem. E nem com outra pessoa ao meu lado.

PS: "Cristo Redentor/ Braços abertos sobre a Guanabara/ Este samba é só porque/ Rio, eu gosto de você..." (Tom Jobim).