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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Iteração


Sempre me encontrava nas mesmas situações, embora o tempo nos afastasse durante meses. Naqueles finais de festa ou na madrugada em um bar, com a maquiagem se desfazendo e com um copo na mão. Eu sabia que viria, que não aguentaria. Quando tudo parecia não ter mais chance de dar certo, estávamos lá um para o outro. Estávamos prontos para dar conforto, sem explicações, sem cobranças, para todos os amores que deram errado, para tudo que poderia ser e não foi. Eu dizia que era você quem procurava, que nunca o provocava, mas no fundo sei que o fazia. Intencionalmente, como quem senta para escrever uma poesia, mas depois diz que foi por acaso. Você me dizia o quanto eu era tola e que aquele ar de mistério aguçava a curiosidade de muita gente. Comentário que eu desconsiderava, pois para me agradar, você mente.
Todas aqueles momentos, mesmo sendo previsíveis, eram sempre desejáveis. O jeito que me abraçava, as palavras que sussurrava e como me fazia sentir. Dizia que eu te deixava mais sensível, como nenhuma outra fazia. Eu também gostava de como com você me sentia. Das suas mãos em minha nuca e até da irritante mania de me carregar no colo, como se eu fosse sua menina.
E a história se repetia. Você diria que a culpa era minha, que no final da noite fugia. Embora você não compreendesse, era aí que estava a graça, pois aqueles poucos momentos nos livravam da desgraça do futuro.

PS: "What will you do when you get lonely and nobody´s waiting by your side? You've been running and hiding much too long. You know it's just your foolish pride" ("Layla", Eric Clapton).

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Reencontro


Faz um tempo que desisti de teorizar sobre a vida, sobre os sentimentos e decidi apenas viver. 
Eu tinha qualquer coisa louca de querer entender tudo e saber o porque de cada coisa. Ainda tenho, mas agora com um pouco menos de ansiedade. 
Deixar para trás alguns pensamentos e cobranças me permitiu seguir em frente com mais leveza e serenidade. Consegui seguir sem ter aquela vontade de abrir a porta do passado a cada cinco minutos para ver se alguém ainda estava lá, me esperando para fazer tudo diferente caso o caminho escolhido desse errado. Algumas vezes deu, mas quando voltei dei com a cara na porta. Só então compreendi que o passado é uma sala velha em que só permanecem as nossas empoeiradas lembranças, boas ou más. Ninguém para no tempo, todo mundo caminha. Uns ao seu lado, outros em direção oposta, mas quase ninguém fica sentado na cadeira de balanço olhando os quadros antigos na parede. Quem fica, adoece. 
Esse caminho que parece tão difícil no começo, que nos força a fazer diferente, nos ensina uma porção de coisas. É nele que vamos amadurecendo, crescendo e nos tornando mais sinceros e menos exigentes com nós mesmos. 
Apesar de cada um ser responsável pelo próprio caminhar, não seguimos sozinhos. Existem pessoas que ficarão por um momento e nem por isso serão menos importantes do que outras. Em compensação, algumas permanecerão próximas por toda vida. Existem, ainda, aquelas pessoas que você acha que perdeu, sofre e até começa a se conformar com a ausência quando, em um dia qualquer, elas voltam. 
Gosto de pensar que essa volta traz ambos melhores, com mais maturidade, com saudade e com o entusiasmo renovado. A volta de quem teve tempo para arrumar a casa e colocar flores novas nos vasos, de quem trouxe algo novo para compartilhar, de quem tem um vinho bom para servir. 
O reencontro é tão inesperado que não adianta você se preparar, ficar contando os dias, querer saber se vem ou se não vem e, muito menos, tentar compreendê-lo. Só sei dizer que é um bom, muito bom.
Hoje tenho a confiança de que, em algum momento, tudo ficará claro como uma manhã ensolarada de domingo. Mais que isso, tenho a certeza de que a vida sempre dará um jeito de trazer de volta quem jamais deveria ter ido embora.

domingo, 28 de abril de 2013

Felicidade

 
Quando estamos bem com a nossa alma não temos tempo para cuidar da vida alheia. Cultivar os amigos, compartilhar abraços, sorrisos e ter a certeza de que tudo está dando certo para as pessoas que gostamos. É simples, sincero. O bonito da vida é aprender, cada dia mais, que a felicidade é a única coisa que importa.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

"E no meio de tanta gente eu encontrei você..."





Tenho aprendido que os bons momentos não são medidos pelo tempo, mas pelas risadas, pela companhia agradável e pela intensidade com que são vividos. Pelos filmes assistidos, pelos abraços apertados e pelo sono compartilhado. 
Já não me importo em definir o nome disso ou daquilo, se é sentimento, relação, troca ou sei lá. Não me preocupo em saber quanto tempo irá durar. Seja lá o que for, tem um fim em si mesmo e esse fim é a alegria e todas as coisas boas que pode nos proporcionar. 
Essa convivência tranquila é como um laço, que não aperta e não sufoca. É isso que faz com que seja especial e que cada momento seja saboreado como único. É isso que me faz querer voltar. Porque é doce, porque é suave. Porque sou eu, porque é você.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A Estranha

                                                                       
            Frio na barriga, mãos transpirando. Lá estava eu, sentado em uma das poltronas próximas ao corredor. Janela? Nem pensar. Visualizar o mapa de rota? Jamais. Televisão, lanchinho. Nada disso me acalmava. Aliás, a aeromoça me entregou os fones de ouvido e eu não sabia onde havia guardado. Procurava nos bolsos, na poltrona, me revirava para encontrá-los, quando uma voz interrompeu a minha busca pedindo licença para sentar-se ao meu lado.
            Como se não bastasse o meu medo de voar, ainda teria testemunha. Será que dormiria, tentaria conversar, daria risadas? Nesse momento, levantei os olhos e dei de cara com uma estranha me observando com um jocoso sorriso nos lábios, como se já soubesse do meu desespero.

         Passado os avisos, o avião começou a decolar. Ela continuava com aquele sorriso. Observava curiosa, tudo o que se passava ao lado de fora daquela bendita janelinha, feliz da vida. Abaixo de nós, somente o mar. Concentrei-me em assistir ao programa da Marília Gabriela, mas confesso que a estranha era mais interessante. Reparei que estava ouvindo música. Não deveria gostar da Gabi, nem de Os Flintstones. Ela me olhava meio de canto enquanto eu fingia estar concentrado em fazer a leitura labial do programa. Sorrindo, me ofereceu seus fones. Ela queria rir da minha cara, isso sim. Recusei, mas não resisti ao sorriso, retribuí.   

            A estranha, a janela. Eu estava ficando curioso. Há anos viajava para o Rio e jamais ousara olhar para o lado. Suava só de pensar, mas nesse dia eu quis saber como era lá embaixo. Inclinei-me levemente e olhei pela frente de seu corpo. O mar, a praia, as ilhas. Os olhos, os lábios, a saboneteira. A vista era, realmente, deslumbrante. Nunca mais viajei para o Rio de Janeiro sem apreciar aquela paisagem. E nem com outra pessoa ao meu lado.

PS: "Cristo Redentor/ Braços abertos sobre a Guanabara/ Este samba é só porque/ Rio, eu gosto de você..." (Tom Jobim).