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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Da chegada do amor (Elisa Lucinda)


Estou meio sem inspiração para escrever ultimamente, sem vontade, sem tempo, enfim... Me preocupando com algumas coisas específicas nesses dias.
Gostei muito desse poema da Elisa Lucinda que li hoje e não pude deixar de postá-lo.


Sempre quis um amor
que falasse
que soubesse o que sentisse.
Sempre quis uma amor que elaborasse
Que quando dormisse
ressonasse confiança
no sopro do sono
e trouxesse beijo
no clarão da amanhecice.

Sempre quis um amor
que coubesse no que me disse.
Sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice
onde tanto pudesse a sem-vergonhice
do macho
quanto a sabedoria do sabedor.

Sempre quis um amor cujo
BOM DIA!
morasse na eternidade de encadear os tempos:
passado presente futuro
coisa da mesma embocadura
sabor da mesma golada.
Sempre quis um amor de goleadas
cuja rede complexa
do pano de fundo dos seres
não assustasse.
Sempre quis um amor
que não se incomodasse
quando a poesia da cama me levasse.
Sempre quis uma amor
que não se chateasse
diante das diferenças.

Agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço,
é observar
o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.
Contudo
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.
Sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.
Sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.
Sem senãos.
Sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.
Eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.
Sempre quis um amor
que gozasse
e que pouco antes
de chegar a esse céu
se anunciasse.

Sempre quis um amor
que vivesse a felicidade
sem reclamar dela ou disso.
Sempre quis um amor não omisso
e que sua estórias me contasse.
Ah, eu sempre quis um amor que amasse.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Não é culpa sua


           
Eu poderia escrever milhões de coisas, mas são tantos pensamentos que me ocorrem nesse instante, que mal consigo organizá-los. Está tudo fora de lugar. Não sei se é para rir ou para chorar. Chuva lá fora e o vazio aqui dentro. Tem horas que precisamos fazer o que tem que ser feito, mas só Deus sabe como é difícil. Não consigo sentir nada, nem raiva, nem amor. Não consigo nem chorar para lavar a minha alma. Ficam as músicas, os livros e a lembrança do que foi bom. E foi muito, me fez crescer, mas não serve mais. Vão-se os planos, vão-se os desejos. Outros virão.
Abro mão de muitas coisas, mas não de mim. Acredite, sou mais feliz assim. Confortável seria aceitar a vida como ela é, levar uma vidinha mais ou menos, “hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será”[1]. Para mim, não. É muito sacrifício viver com doses homeopáticas de “amor”, amor de conta-gotas, aquele que você alimenta um pouquinho só pra continuar respirando.  Chega uma hora que esse amor não resiste, ele começa a falhar, vai parando devagarzinho, até que acaba.  Ou talvez, nem fosse amor. Prefiro o nada do que pouco. Quero intensidade, quero entrega, quero verdade. Não, não é sua culpa. É que eu preciso de mais.  


[1] Carlos Drummond de Andrade

PS: "Preciso tanto me fazer feliz..."