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quarta-feira, 24 de março de 2010

A bailarina


A bailarina dança
Dança que dança e não cansa
Daqui pra lá e de lá pra cá
Dança aqui, dança acolá
Sempre nessa ‘requebrança’

PS: "Se você disser que eu desafino amor/ Saiba que isto em mim provoca imensa dor/ Só privilegiados têm o ouvido igual ao seu/ Eu possuo apenas o que Deus me deu" (Tom Jobim e Newton Mendonça).

Minas não tem mar

Lavras Novas - MG

Gosto muito de Minas Gerais, qualquer lugar de lá. Não conheço muita coisa, talvez umas cinco cidades. Algumas conheci apenas de passagem, quando fui para BH de ônibus, uma aventura, umas nove horas de viagem, cortando as montanhas de Minas. A viagem é cansativa, mas a gente vê muita coisa bonita e interessante pelo caminho, ouve muita música e volta com um caderno recheado de anotações.
Conheci muitas pessoas incríveis por lá, pessoas que guardo nas lembranças e no coração. Sem contar que é uma terra boa pra nascer artista! Existem muitos famosos, conhecidos mundialmente (Aleijadinho, Mestre Ataíde, João Guimarães Rosa, Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade, Clara Nunes, Lô Borges e tantos outros que não caberiam nesse texto), mas tive a oportunidade de conhecer vários artistas que (ainda) não são tão conhecidos assim, mas que também possuem grande genialidade e que estão criando todos os dias, seja escrevendo, compondo, pintando, cantando, cozinhando, esculpindo... e, infelizmente, quantos continuam anônimos!
Minas é um conjunto harmônico entre sua natureza, sua gente e sua cultura. Minas é apaixonante, envolvente, de encher os olhos. Minas é amizade, inspiração, saudade... aquela saudade boa de carregar. Há quem diga que Minas não é tão gracioso porque não tem mar, mas para mim, nem precisaria. Não é a toa que a música diz "Quem te conhece não esquece jamais!" - não esquece mesmo. Rubem Alves também é mineiro e disse que o mar de Minas é o céu, nesse brilhante texto que segue abaixo. Concordo plenamente.

O Pequeno Barco de Velas Brancas
Rubem Alves

Nasci nas Minas Gerais. Minas não tem mar. Minas tem montanhas, matas e tem céu. É aí que me sinto em casa. Uma babalorixá, sem que eu perguntasse, me revelou que meu orixá era Oxossi, o guarda das matas. Acreditei. E, por causa disso, quase fiz uma loucura. Estava no aeroporto, vi uma loja de arte, entrei para ver, e o que vi me fascinou: uma coleção de máscaras de orixás, assombrosas, fascinantes.

Entre elas, a máscara do meu orixá, Oxossi. Perguntei o preço. Muito cara. Mas eu estava em transe, enfeitiçado. Puxei o talão de cheques. "Vou levar", eu disse para a vendedora. "O seu cartão de embarque, por favor", ela disse. Mostrei. "Mas o seu vôo é doméstico. E essa loja só vende artigos para vôos internacionais." Saí triste, sem o meu Oxossi.

Minas não tem mar. Lá, quem quiser navegar tem de aprender que o mar de Minas é em outro lugar. "O mar de Minas não é no mar./ O mar de Minas é no céu,/ pro mundo olhar pra cima e navegar/ sem nunca ter um porto onde chegar." Acho que é por isso que em Minas nasce tanto poeta. Poeta é quem navega nos céus.

Comecei a navegar no mar de Minas quando era menino. Me deitava no capim e ficava vendo as nuvens e os urubus. Pensava poesia sem saber que era poesia. A Adélia diz que poesia é quando a gente olha para uma pedra e vê outra coisa. Como no famoso poema do Drummond, "No meio do caminho havia uma pedra..." Estou certo de que essa pedra que ele via era outra coisa cujo nome ele não podia dizer.

Pois eu ficava olhando para as nuvens e não via as nuvens: via navios, bichos, rostos, monstros. As nuvens me ensinaram minha primeira lição de filosofia. Elas me ensinaram a filosofia de Heráclito: "Tudo flui, nada permanece." "Sou e não sou no que estou sendo" (Cecília). Todo ser é um permanente deixar de ser. A vida acontece morrendo. Como o rio. Como a chama.

Meus mestres navegadores eram os urubus. Desajeitados em terra, não conheço poeta que tenha falado deles com carinho. É romântico dizer da amada que ela se parece com uma garça branca. Mas quem diria que ela se parece com um urubu? Que eu saiba, somente a Cecília viu a sua beleza: "Até os urubus são belos/ nos largos círculos dos dias sossegados." Urubus voam sem bater asas. Nas alturas, apenas as inclinam ligeiramente para flutuar ao sabor do vento. Voam sem fazer nada. Fazer nada é o seu jeito de fazer, para voar. Deixam-se ser levados. Flutuam ao sabor do vento. São mestres do taoismo.

O mar de água, eu só fui ver depois que me mudei para o Rio. Debruçado na murada de pedra da praia de Botafogo ficava a ver os barcos de velas brancas levados pelo vento. Como as garças, voando no céu de Minas.

O mar me fascina. Mas, como não sou do mar, sou das matas, não vou. O mar me dá medo. Mar é perigo, naufrágio. Disse Fernando Pessoa, gravemente: "Deus ao mar o perigo e o abismo deu...". Ele, português, sabia do que estava falando. "Ó mar salgado, quanto do teu sal/ são lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos quantas mães choraram,/ Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar/ Para que fosses nosso, ó mar!" Sabia disso Dorival Caymi quando cantou o jangadeiro que entrou no mar e a jangada voltou só. Doce morrer no mar? Talvez. Melhor morrer no mistério indecifrável do mar que morrer as mortes banais da terra seca.

Mas o perigo não importa. O fascínio é maior. Somos os únicos seres que amam o perigo. Sabia disso a Cecília, que nasceu olhando o mar. "A solidez da terra seca, monótona,/ parece-nos fraca ilusão./ Queremos a solidão do grande mar,/ multiplicada em suas malhas de perigo./ Queremos sua solidão robusta,/ uma solidão para todos os lados, uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo."

Lá está o barquinho de velas brancas, navegando no mar! Bem que ele poderia navegar só nas baías e enseadas, onde não há perigo e o mar é sempre manso. Mas não! Deixando a solidez da terra firme, ele se aventura para sentir o vento forte enfunando as velas e o salpicar da água salgada que salta da quilha contra as ondas. "Sem nunca ter um porto onde chegar", ele navega pelo puro prazer de entrar no mar.
A vida é assim mesmo. É sempre possível deixar o barco atracado ou só navegar nas baías mansas. Aí não há perigo de naufrágio. Mas não há o prazer do calafrio e do desconhecido.

Segundo o Taoismo, a vida é assim: somos pequenos barcos de velas brancas no mar desconhecido. Os remos são inúteis. A força dos elementos é maior que a nossa força. Gosto de ver os urubus voando nos prenúncios de tempestade. Eles não batem asas. Não lutam contra o vento. Flutuam, deixam-se levar. A sabedoria dos barcos a vela é a mesma sabedoria dos urubus. Brincar com vento e onda, vela e leme, e deixarmo-nos sermos levados - A sabedoria suprema não é fazer – remar – mas fazer nada, deixar-se levar pelo mar da vida que é mais forte. Eu nunca consegui chegar a lugar algum usando remos. Sempre fui levado por uma força mais forte que a minha razão a praias com que nunca havia sonhado. Foi assim que me tornei escritor, porque o mar foi mais forte que o meu plano de viagem.

De fato, "Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu". Talvez seja por isso que os navegadores navegam: porque no perigo e no abismo eles vêem refletida a eternidade.


PS: "Vai diminuindo a cidade/ Vai aumentando a simpatia/ Quanto menor a casinha/ Mais sincero o bom dia" (Patu Fu).

domingo, 7 de março de 2010

Mil faces

Brincando de Pop-Art

Quantas mil faces
tem esta menina?
Ora é escritora,
ora é bailarina.

Já quis ser astronauta,
médica, desenhista...
Quis ser pintora e ir pro circo
pra tornar-se equilibrista.

No palco dos sonhos,
atua com liberdade.
Pode ser o que quiser,
inventar sua realidade.

PS: "A gente não quer só comida /A gente quer comida, diversão e arte/ A gente não quer só comida/ A gente quer saída para qualquer parte/ A gente não quer só comida/ A gente quer bebida, diversão, balé/ A gente não quer só comida/ A gente quer a vida como a vida quer" (Titãs)

sábado, 6 de março de 2010

Everlasting love


Alladin: um dos meus desenhos prediletos, ao som de "Everlasting love", The Love Affair.

PS: "A fantasia é a lanterna mágica da nossa alma" (Marquês de Maricá).

quinta-feira, 4 de março de 2010

Comercial de Margarina

Era uma segunda-feira de outono. As calçadas estavam cheias de folhas e, contrariando as características da estação, a cidade de Campinas amanhecia chuvosa.
No seu apartamento na centro da cidade, cuidadosamente decorado com elementos naturais e quadros abstracionistas com cores vibrantes,
Ana acordou perdendo hora. Levantou-se de súbito, como quem desperta de um pesadelo. Estava meio atordoada, não conseguia organizar os pensamentos. Correu para o armário, vestiu suas botas pretas e seu vestido bege de tricô. Passou pela sala, onde estavam ainda livros e os DVDs fora da estante, desenhando o cenário de seu final de semana. Sem preocupar-se com a desordem, pegou a bolsa, o guarda-chuva e saiu apressada.
No corredor, avistou a placa: “Elevador em manutenção”. É inacreditável como tudo dá errado exatamente quando estamos com pressa; todos os detalhes minimamente calculados. Só lhe restava descer pelas escadas os doze andares
que a separavam da rua e torcer para que não levasse um tombo, para piorar ainda mais o seu humor. Um acontecimento desses seria capaz de despertar qualquer pessoa ou deixá-la desacordada de vez.
Em frente ao prédio, esperava ansiosamente um táxi. Vários táxis passavam pela avenida, mas todos lotados. Observava a chuva, caindo forte, violenta. Os carros passavam velozes, em cima das poças e espirrando água nos pedestres, lembrando os carros de Fórmula Um correndo na pista encharcada de Interlagos. O céu estav
a cinza, bem escuro, quase negro. Aquele momento não parecia pertencer a um dia que estava amanhecendo, mas a um dia que estava terminando.
Dez minutos depois, após todas as observações de Ana sobre aquela segunda-feira cinzenta, surgiu um carro desocupado. Ela estendeu os braços e começou a acenar para o t
áxi.
Do outro lado da cidade, Felipe tomava café próximo ao apartamento dele, que nem era um apartamento de verdade, mas um quarto conjugado com a cozinha e o banheiro, sem nenhuma preocupação decorativa, mas, ainda assim, aconchegante. Na pseudossala, um armário, que também era uma estante; uma cama, que servia de sofá para receber algumas seletas visitas; e uma mesa de vidro com duas cadeiras para eventuais jantares com comida congelada. Como resolveu morar sozinho desde
os últimos anos da faculdade e ainda não aprendera a fazer sequer um café, recorria à padaria mais próxima, fazendo sempre o mesmo pedido: um chocolate quente e um pão com manteiga. O mesmo ritual de todos os dias, que lhe lembrava a vida tranquila na casa da mãe, com a mesa posta e algumas delícias para saborear.
Da janela da padaria via a chuva e pensava que aquele era um dia perfeito para continuar no seu sofá-cama, ou cama-sofá, em meio às cobertas e almofadas. A vida já tinha sido mais fácil, agora lhe restava terminar logo aquele café da manhã e ir para a biblioteca sem mais delongas. Por um momento sentiu-se aliviado por ter estacionado seu carro em frente à lanchonete, pois assim não precisava caminhar na chuva.

Ana entrou no táxi molhada, e
mbora estivesse com o guardachuva.
– Para onde, dona? – perguntou o taxista.
– Por favor, Unicamp. Biblioteca Central.
O taxista tentou puxar conversa:

– A senhora está molhada, hein?!
“Não, estou seca. Não está vendo?”, esse foi seu primeiro pensamento, mas a boa educação que tinha ou, às vezes, fingia ter fez que respondesse de forma ponderada:

– Um pouco.
Minutos depois, numa tentativa amigável, A
na perguntou:
– Qual é o seu nome?

– O meu?

“Não” pensou, mas conteve-se e acenou que sim com a cabeça.
– Felipe, dona – respondeu o motorista.

Aquele taxista já a estava irritando. Felipe. Aquele maldito nome.

Só poderia ser. Todas as vezes que perdera a paciência nos últimos anos fora por causa de um Felipe. Tudo o que ela não queria era começar uma segunda-feira com chuva e ouvindo aquele maldito nome.

Enquanto isso, o Felipe que estava do outro lado da cidade e agora se dirigia à Unicamp ligou o rádio para relaxar um pouco. Após sintonizar uma rádio, ouviu uma música de
Ana Carolina. Ana. Aquele bendito nome. Como gostava dele! Um nome pequeno, carregado de significados. Três letras que traziam o mundo dentro de si. Pequeno do tamanho da pessoa que o ostentava, mas como ela se tornava grande nos braços dele. Um tempo depois, parou de pensar no passado. Ana, Ana, nem sabe mais onde ela está. Tratou logo de estacionar o carro e entrar na biblioteca antes que aquele desejo de jogar-se na cama retornasse.
Enfim, Ana pagou o táxi e desceu na rua Sérgio Buarque de Holanda. Entrou na biblioteca. Seria um dia árduo de pesquisa. Ana era formada em Letras e buscava vários livros para elaborar seu projeto de doutorado.

Subiu as escadas, embrenhou-se entre as prateleiras. Livros grandes, pequenos, finos, grossos, coloridos, pretos. Livr
os para todas as idades, todos os gostos e todas as vontades.
Felipe, que andava sonolento entre as prateleiras, esfregou os olhos, pois não acreditava no que via. Será que agora Deus transformava o seu desejo em realidade? Assim, tão rapidamente? E não precisou fazer nenhuma oração. Não, não era um pufe vazio no meio da biblioteca, muito melhor que isso. Era Ana. Em carne, osso e beleza.
Alguns minutos depois, resolveu chamar-lhe a atenção:
– Bonito! Matando aula – disse alguém do outro lado do saguão.

Aquela voz lhe era familiar, jamais esquecera, e isso a irritava profundamente. Felipe. Não o taxista, mas o outro. Tinha ouvido esse comentário toda vez que, casualmente, se encontravam na universidade.
Virou-se para confirmar do que já tinha certeza.

– Ah, não! Era só o que me faltava nesta segunda-feira! – disse Ana, num misto de surpresa e r
aiva.
– Então, agora não falta mais nada. Nossa! Como você está molhada!– disse Felipe, abrindo um largo sorriso.
– Ok. Qual a novidade?
Com ele, Ana podia ser irônica.
Com ele, poderia ser do jeito que quisesse.

– Irônica, como sempre – disse ele. “E linda, apesar de molhada”, pensou.

Ana não queria reencontrá-lo. História inacabada não era o gênero favorito dela. E não seria naquele dia que iria começar tudo de novo, não mesmo, pois um dia que começa ruim só tende a piorar. Sentia-se estranha ao vê-lo, insegura, aquelas coisas que nos fazem perder o chão. Sentia uma espécie de dor e alegria, saudade do que foi e que não foi. Sentia certo medo, inexplicável. Preferia deixar
Felipe ali, empoeirado, em uma prateleira qualquer, longe da sua vista.
– Me deixe em paz. Aliás, o que faz aqui? – Ana perguntou.
– Eu ia deixar, mas já que você fez uma pergunta... Procuro um livro de mecânica, aliás, relacionado a uma das aulas a que você assistiu comigo na graduação. Lembra-se?
– Não. Não me lembro de nada daquele tempo e nem quero lembrar.

É óbvio que se lembrava. Nunca uma aula do curso de Letras a deixou tão feliz como aquela aula da Engenharia e tudo o que acontecera a partir daquela aula.
– Ah, que pena – disse Felipe, com uma expressão que só ele tinha, já se inclinando para abraçá-la.
– Com licença, preciso continuar – disse Ana, desvencilhando-se do possível abraço.
– Tudo bem.
– Ah, e outra coisa – agora dizia mais séria, quase brava, um pouco desajeitada. – A seção de engenharia, sem dúvida, não é aqui.
Ana virou-se para as prateleiras e continuou sua procura. Felipe foi para a seção de engenharia. Ambos ficaram
recordando o tempo da graduação, nem tão distante assim. Um tempo feliz, apesar dos desencontros. Naquela época, estavam sempre juntos, um ajudando e apoiando o outro no que fosse preciso. Embora fizessem cursos completamente diferentes, conseguiam entender claramente o que outro queria dizer, tinham paciência para ouvir as explicações mais absurdas durante horas e horas. Almoçavam juntos, jantavam juntos, dividiam a mesma mesa de bar e, às vezes, a mesma cama. Tinham vários sonhos que embasavam seus planos para o futuro, incerto sim, mas que faria a ambos muito felizes se tivesse se tornado realidade. Casa na praia, gramado. Um carro modesto e cachorros grandes que lavariam no final de semana, escorregando nas espumas. E como isso seria engraçado... Pensavam nos CDs que comprariam, nas músicas que dançariam juntos, nos filmes a que assistiriam e nos lugares que gostariam de visitar. Planos. Tantos e tão concretos como castelos de areia. Agora eles se desfaziam e relembrá-los provocava uma esperança estruturada sobre o nada, como a areia escorrendo por entre os dedos.
Uma hora se passou. A chuva continuava forte.

De repente, aquele se tornou o momento para colocar as coisas, de uma vez por todas, em seus devidos lugares. Retomar os planos, ter uma vida de verdade. A vida que se queria ter, fazer com que os sonhos se tornassem realidade. Felipe não queria perder mais nenhuma hora longe daquela pessoa tão especial na vida dele. Torcia para que não fosse tarde demais.
Ana continuava molhada. Tremia. Estava pensando que tudo poderia ter sido diferente e que, talvez, tivesse perdido mais uma chance. Talvez, a última chance de ter uma vida igual a uma propaganda de margarina: perfeita, pelo menos para ela. Ao mesmo tempo pensava que todos aqueles pensamentos eram uma grande bobagem, melhor s
eria não pensar em mais nada e fazer o que tinha de ser feito. O que tinha de ser feito, afinal? Sem nenhuma resposta satisfatória, levantou-se e voltou à prateleira. Agora procurava A invenção do cotidiano, de Michael de Certeau.
Do outro lado da prateleira estava Felipe a observá-la entre os livros. Como era boa aquela sensação de observá-la entre os livros, escondido, como uma criança que faz arte e não quer ser descoberta. Observava-lhe os olhos atentos, conferindo os números nas lombadas dos livros. O rosto delicado, a sobrancelha levemente franzida, as mãos delicadas e os cabelos escorridos, levemente desalinhados por causa da chuva.

Seus olhares se cruzaram.

As mãos gelaram, o coração parou, e todos aqueles sentimentos dos quais desejavam fugir vieram à tona. O medo, a incerteza, a euforia. Por um momento a mente deles ficou livre e cheia de todos os pensamentos do mundo.
– Achei! – disse Felipe, saindo de trás da prateleira e
seguindo em direção à Ana.
– O livro? – perguntou ela.

– Não, você.

Há quanto tempo aquelas palavras estavam sendo guardadas, lutando contra qualquer tipo de razão para, finalmente, virem à tona. Ninguém disse mais nada, afinal de contas, cabem muito mais palavras no silêncio do que em qualquer frase. Felipe passou a blusa pelos ombros de Ana e abraçou-a junto ao peito.

Não pesquisaram mais nada naquele dia. Felipe se esqueceu da mecânica. Ana adiou as leituras. Saíram da biblioteca, andaram no meio da chuva e nem se importaram. Riram quando o guarda-chuva não abriu, pisaram nas poças, abraçaram-se, dançaram e beijaram-se na chuva. No estacionamento, Felipe erguia Ana nos braços e a girava, dizendo que era o homem mais feliz do mundo. Brincaram. Pareciam duas crianças, tamanha a felicidade.
Entraram no carro, ensopados, sem se preocuparem em não molhar os bancos ou suja
r o assoalho. Ana ligou o rádio. Felipe aumentou o volume. Saíram cantando, rindo, segurando-se pelas mãos. Foram ao apartamento de Felipe, que agora parecia mais aconchegante do que nunca. Queriam apenas ficar juntos, esparramados naquele sofá, ou seria cama? O amor não tem fome e não tem frio, tem é pressa. Pressa de recuperar o tempo perdido, pressa de amar sem medida, pressa de conquistar o objeto amado. Mais tarde pensariam em almoço, banho, roupas secas. Por hora, estava tudo perfeito, comercial de margarina mesmo.
Depois das cinco da tarde, tomaram banho e decidiram fazer o que seria o almoço. Ana fez um rabo-de-cavalo, vestiu calça jeans e uma camiseta branca de Felipe, que a achava ainda mais linda. Discretamente tomava posse da cozinha e pedia pequenas ajudas ao anfitrião. Por fim, optaram por fazer um prato
especialíssimo, uma maravilha da culinária moderna: lasanha congelada. E como aquela lasanha estava deliciosa, acompanhada por um vinho estratégico que residia na geladeira do Felipe, esperando uma ocasião especial.
– Me passa o sal, por favor – pedia Felipe, apertando levemente a cintura da moça.

Ela passava o sal e derretia-se em um sorriso.

– Há quanto tempo, hein?! – disse Ana.
– Esperamos por isso?
– É. Olha que já passamos até pelo mestrado! Culpa da sua teimosia. ficou adiando, adiando – dizia, rindo e enroscando os dedos por entre os cabelos de Felipe.

– Ah, minha nada. Se você não fosse tão difícil...

– É engraçado, Fê – jeito carinhoso que Ana usava para se referir a Felipe.
– Para estarmos aqui, vivendo tudo isso, foi preciso que todas as tentativas anteriores dessem errado.

– No mínimo, é uma observação curiosa – disse Felipe, fingindo ser sério.

– Ainda bem! – completaram.
Riram. Na verdade a culpa dos desencontros não era de n
inguém.
Talvez fosse do tempo ou das escolhas que fizeram. Mesmo porque o que aconteceu nesse dia nunca havia sido planejado. Era um sentimento completamente novo, inesperado, saído da caixa de surpresas.Um jeito novo de encarar a vida, de encarar tudo. Era a simplicidade. A felicidade pura e inocente. Felicidade que desejavam há muito tempo e que, agora, conquistavam porque aprendiam a inventar o próprio cotidiano.

Como diz Rubem Alves, os sentidos foram parar na caixa de brinquedos. Fizeram amor com os olhos, com os ouvidos, sentiram-lhe o gosto, o cheiro e, além d
isso, foram capazes de tocá-lo. Fizeram amor com as nuvens, com a chuva, com as flores e com o vento. Amor com as palavras, com a poesia, com os livros e com a música. Fizeram amor de todas as formas, no sentido mais sublime da palavra. Coisas que só as pessoas que se apaixonam todos os dias, seja lá pelo que for, são capazes de fazer. Mais do que tudo isso, fizeram amor com a vida.


Esse é o meu "filho" mais querido, o primeiro conto, que abriu as portas para minhas "aventuras literárias". Graças à ele, tive a oportunidade de conhecer BH, fazer novas amizades e publicar ao lado de pessoas tão talentosas no livro "Da palavra à literatura: narrativas contemporâneas", pela editora Fumec.
Esse conto surgiu de uma maneira engraçada. Com o tempo, aprendi a gostar de escrever, mas nunca imaginei alçar vôos maiores. Sem nunca ter escrito nada que tivesse alguma pretensão literária, um certo dia tive uns "cinco minutos", comecei a procurar concursos literários e tive a ideia de escrever um texto para participar do Concurso Nacional de Literatura da Fumec, no final de 2008. Daí fui "costurando" uma série de acontecimentos, histórias que me passavam pela cabeça, músicas, livros, sentimentos, cenas de filmes, lugares, enfim. Coisas que jamais teriam qualquer ligação e assim nasceu "Comercial de margarina", título em homenagem a uma amiga (Elaine!!!), que me disse estar tão feliz que parecia protagonizar um comercial de margarina mesmo. E daí foi uma correria só, escrevendo a caminho da faculdade, nas aulas, quando chegava em casa, mostrando para minha primeira leitora (né, Hanna!?), até que, no último dia do prazo, consegui terminá-lo. Para a minha grande surpresa, no início do ano passado, fiquei sabendo que ele foi um dos premiados.
Espero que tenham apreciado!


PS: "Sem lenço, sem documento/ Nada no bolso ou nas mãos/Eu quero seguir vivendo, amor/Eu vou... Por que não, por que não..." (Caetano Veloso).

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 1994.
ALVES, Rubem. A educação dos sentidos e mais. Campinas: Verus, 2005.


quarta-feira, 3 de março de 2010

Outro Lugar


Interpretação: Milton Nascimento
Composição: Elder Costa

Cê sabe que as canções são todas feitas pra você
E vivo porque acredito nesse nosso doido amor
Não vê que tá errado, tá errado me querer quando convém
E se eu não tô enganado acho que você me ama também

O dia amanheceu chovendo e a saudade me contêm
O céu já tá estrelado e tá cansado de zelar pelo meu bem
Vem logo que esse trem já tá na hora, tá na hora de partir
E eu já tô molhado, tô molhado de esperar você aqui

Amor eu gosto tanto, eu amo, amo tanto o seu olhar
Andei por esse mundo louco, doido, solto com sede de amar
Igual a um beija-flor, que beija-flor,
De flor em flor eu quis beijar
Por isso não demora que a história passa e pode me levar

E eu não quero ir, não posso ir pra lado algum
Enquanto não voltar
Não quero que isso aqui dentro de mim
Vá embora e tome outro lugar
Talvez a vida mude e nossa estrada pode se cruzar
Amor, meu grande amor, estou sentindo
Que está chegando a hora de dormir.

PS: "Tinha que ensiná-la a pensar no amor como um estado de graça que não era meio para nada, e sim origem e fim em si mesmo.", do livro "O Amor nos Tempos do Cólera", de Gabriel García Marquez.

terça-feira, 2 de março de 2010

Pôr-do-sol


Adoro pôr-do-sol. Sempre que tenho a oportunidade de presenciá-lo lembro do poema abaixo que, na sua simplicidade, relata coisas belas da vida que às vezes deixamos passar despercebido, esquecendo que a natureza nos proporciona um novo espetáculo a cada dia.

"Ver um mundo num grão de areia
E um céu numa flor silvestre,
Ter o infinito na palma da sua mão
e a eternidade numa hora."


William Blake

PS: "Há uma rachadura, uma rachadura em tudo. Por ela, a luz pode entrar." (Leonard Cohen).

segunda-feira, 1 de março de 2010

Medo

"O grito", de Edvard Munch, 1893

Tenho medo de não saber viver direito, de chegar no fim da vida e ver que meus sonhos não foram realizados. Medo de me acostumar com uma vida medíocre, de não lutar pelo que acredito, de me conformar com tudo como tantos outros.
Tenho medo de andar em ruas desertas, medo de imprudências no trânsito, de assaltos, bala perdida, de que meus caminhos sejam interrompidos por um ato de violência, medo de perder as pessoas que amo, medo da morte.
Tenho medo de ficar sozinha, de perder família e amigos, me acostumando assim com a solidão. Medo de ter uma carreira frustrada, de não fazer o que quero, não conseguir o que espero.
Tenho medo de me perder de mim, medo de mudar e medo de ser sempre a mesma. Medo de me acostumar com o que não presta, medo de esquecer o que interessa.
Tenho medo de abraços sem amizade, de falta de lealdade, de beijos sem paixão. Medo de chuva, de sol escaldante, medo da fome e de tanto sofrimento estampado nas páginas dos jornais.
Tenho medo de cair da escada, de não me deslumbrar com nada, de não amar de verdade, de achar que a vida é banal. Medo de achar sonhos bobagens, de não dizer a verdade ,de levar uma vida "mais ou menos" quando ela pode ser mais.
Tenho medo de ter tanto medo mas, apesar de tudo, todos os dias levanto cedo com a coragem de quem precisa enfrentá-los para fazer a vida valer à pena.

PS: "Eu não sou besta pra tirar onda de herói/ Sou vacinado, eu sou cowboy/ Cowboy fora da lei/
Durango Kid só existe no gibi/ E quem quiser que fique aqui/ Entrar pra historia é com vocês!" (Raul Seixas e Cláudio Roberto)